Sábado, 6 de Outubro de 2007

As seitas e a lavagem cerebral (6)

As Técnicas de Manipulação – Como as Seitas/Cultos Controlam a Mente dos Adeptos

 

Depois de conseguir converter uma pessoa ao grupo, uma seita/culto procura mantê-la no mesmo de todas as formas possíveis. Para isso doutrina-o, despersonaliza-o, fanatiza-o, programa-o. O grau e o modo dependem do nível de perigosidade da seita/culto (Prieto, 1994). O adepto tem que ser sofrer manipulação (Leyens & Yzerbyt, 1999), também chamada controlo do pensamento (Myers, 1999) ou reeducação, de forma a perder o juízo crítico, ou utilizando uma linguagem do senso comum: tem que sofrer uma lavagem ao cérebro ou violação psicológica (Vernette, 2002).

A Nova Enciclopédia Larousse (1996) designa por "lavagem ao cérebro", a acção psicológica sobre uma pessoa para eliminar os seus pensamentos e reacções pessoais, através da utilização da coerção física ou psicológica. Quanto ao Dicionário ilustrado do conhecimento essencial (1996), define a lavagem ao cérebro como uma doutrinação cujo objectivo fundamental é a alteração de atitudes e crenças de uma pessoa, de forma que aceite como inquestionável um determinado ponto de vista político ou religioso. Técnicas como o isolamento, a privação de alimentos ou de sono, a hipnose, a repetição constante e até mesmo a tortura física podem ser usadas para quebrar a resistência e aumentar a dependência do sujeito à lavagem cerebral.

De facto, muitas vezes as seitas/cultos recorrem a sanções religiosas para "aprisionar" os seus adeptos. A eficácia das sanções religiosas baseia-se na crença em ideias religiosas e, também, na aceitação do poder e autoridade dos chefes religiosos. As sanções tomam diversas formas: penitências, excomunhão, perda dos méritos, ameaça da condenação eterna e da não-ressurreição, da reencarnação da alma numa forma de vida inferior, etc. (Lakatos & Marconi, 1999).

O processo de manipulação é dirigido por psicólogos especialistas que proporcionam técnicas e métodos quase irresistíveis, até mesmo para as pessoas mais fortes (Prieto, 1994). Conseguem fazer com que as pessoas acreditem que só a Bíblia deles é verdadeira, que eles é que são os sucessores dos apóstolos de Cristo, que só devem ler publicações da seita/culto, porque todas as outras são material apóstata, que só eles vão para o "Céu", etc., o que contradiz a própria Bíblia. De facto, no Novo Testamento, podemos ler: "João disse a Jesus: «Mestre, vimos um homem que expulsa demónios em Teu nome. Mas nós proibimos-lho, porque ele não nos segue». Jesus disse: «Não lho proibais, pois ninguém faz um milagre em Meu nome e depois vai dizer mal de Mim. Quem não está contra nós está a nosso favor»" (Mc 9, 38-40).

Uma fonte de irracionalidade é a nossa tendência, chamada de tendenciosidade de convicção, de nos apegarmos às nossas convicções mesmo diante de evidências em contrário. Pode ser surpreendentemente difícil mudar uma falsa convicção depois que uma pessoa tem ideias que a apoiam. Quanto mais apreciamos porque as nossas convicções podem ser verdadeiras, mais nos apegamos a elas. A tendenciosidade de convicção aplica-se até mesmo às nossas convicções sobre nós mesmos (Myers, 1999).

As seitas/cultos não só se oferecem soluções globais a uma clientela anónima, mas até a cada indivíduo em particular. Depois dos encontros de captação, das conferências, festas ou cursos, vêm os contactos pessoais, os inquéritos, por meio dos quais se investigam as condições em que vive o possível adepto, as suas esperanças, as suas frustrações, os seus interesses, os seus problemas, e a tudo isso a seita/culto dará uma resposta, seja para rectificar o mau funcionamento do casal, para solucionar problemas sexuais, problemas de toxicodependência, de alcoolismo, de tabagismo, de esgotamento, do lazer, da solidão e desespero pela morte de um ente querido. As seitas/cultos criam um clima que provoca a ligação do candidato ao grupo; para isso pratica-se o "bombardeamento de amor": é rodeado de carinho, por um acolhimento entusiasta, envolvendo-o num clima de amizade; organiza-se uma refeição gratuita, uma "festa-pesca", com prostituição nalgumas seitas/cultos, como nos Meninos de Deus. O candidato vive uma autêntica lua-de-mel. Ao mesmo tempo, vai-se cercando o candidato fascinado pela personalidade do líder, exaltando-o e apresentando-o como o salvador das suas vidas (Prieto, 1994).

Contudo, há maneiras mais subtis de manipular as pessoas. As atitudes podem ser formadas e mantidas através de vários processos:

 

     

  1. Condicionamento clássico
  2.  

     

     

  3. Condicionamento operante
  4.  

     

     

  5. Aprendizagem vicariante
  6.  

    : mas não é apenas o reforço directo ou a punição que podem influenciar atitudes. A aprendizagem vicariante, na qual uma pessoa aprende através da observação de outros, pode também contribuir para a formação da atitude (R. S. Feldman, 2001). Ao observar as condutas dos "irmãos" da seita/culto, o adepto tende a imitá-las, já que sendo estes os "eleitos", estes comportamentos agradam a Deus.
    : atitudes que são reforçadas, tanto verbalmente como não verbalmente, tendem a ser mantidas (R. S. Feldman, 2001). Os comportamentos dos membros de uma seita/culto, que estão de acordo com as normas do grupo, são constantemente reforçados positivamente, e os que não estão de acordo são punidos;
    : um dos processos básicos subjacentes à formação e ao desenvolvimento de atitudes pode ser explicado por princípios de aprendizagem (R. S. Feldman, 2001). Ivan P. Pavlov (1849-1936), médico e psicólogo russo, foi um dos grandes impulsionadores dos estudos sobre a aprendizagem e da psicologia em geral (Pestana & Páscoa, 1998). Pavlov fundou o Instituto de Medicina Experimental em 1890 e publicou Conferências sobre o Trabalho das Glândulas Digestivas em 1897. A partir de 1901, estudou a maneira como os cães em laboratório aprendiam (eram «condicionados») a salivar sem alimentos (Benson & Grove, 2000), tendo sido galardoado com o Prémio Nobel em 1904. Pavlov chegou à descoberta do reflexo condicionado a partir dos seus estudos sobre as secreções salivares e digestivas. O condicionamento clássico foi estudado por Pavlov com base no reflexo condicionado. Consiste na associação entre dois estímulos, um estímulo neutro (EN) (som) e um estímulo natural (incondicionado) (EI) (carne), que provoca uma resposta incondicionada (RI) (salivação). A repetição desta associação faz com que o estímulo neutro, apresentado isoladamente, seja capaz de provocar a resposta originalmente produzida pelo estímulo natural, isto é, o estímulo neutro passa a estímulo condicionado (EC), capaz de provocar uma resposta condicionada (RC) (Pestana & Páscoa, 1998). Os mesmos processos de condicionamento clássico que fizeram os cães de Pavlov salivarem ao som de uma campainha podem explicar como as atitudes são adquiridas. As pessoas desenvolvem associações entre os vários objectos e as reacções emocionais que as acompanham (R. S. Feldman, 2001). Associando uma doutrina, por mais absurda que pareça ser, com uma "imagem" de que os membros da seita/culto são todos "santos", isto é, que os seus comportamentos agradam a Deus e conduzem à salvação, leva as pessoas a aceitar sem questionamento essa doutrina;

 

O controlo do pensamento pode ser conseguido também através de uma técnica designada por estratégia do pé-na-porta. Trata-se de procedimento de influência que consiste em, através de um primeiro pedido anódino (inofensivo, sem importância), levar alguém a fazer aquilo que realmente se espera dele (Fischer, 2002). É importante salientar, que durante a Guerra da Coreia um ingrediente fundamental para o programa chinês de "controlo do pensamento" dos prisioneiros americanos era o uso eficaz do fenómeno do pé na porta – uma tendência das pessoas que concordam primeiro com um pedido pequeno de atenderem mais tarde outro maior. Assim, uma escala gradual de pedidos dos chineses era direccionada aos prisioneiros de guerra, a partir de pedidos inofensivos. Depois de "treinar" os prisioneiros a falar ou escrever declarações triviais, os comunistas pediam que copiassem ou criassem algo mais importante, como anotar talvez os defeitos do capitalismo. Em seguida, os prisioneiros participavam em discussões de grupo, escreviam autocríticas, ou faziam confissões públicas. Depois de fazerem isso, talvez para ganharem privilégios, os prisioneiros muitas vezes adequavam as suas convicções a uma coerência com os seus actos públicos. Ou seja, se induzidos a falar ou a escrever em defesa de um ponto de vista sobre o qual têm dúvidas, os sujeitos começam a acreditar nas suas próprias palavras. Dizer torna-se acreditar (Myers, 1999). Uma atitude não é algo fixo nas profundidades da nossa mente; tem mais a ver com as tendências do nosso comportamento (Leyens & Yzerbyt, 1999). Por isso, muitas seitas/cultos obrigam os seus adeptos a proferirem regularmente palestras aos restantes membros, sobre a doutrina da organização.

Por que razão esta técnica funciona?

 

 

1. Uma razão reside no envolvimento com o pequeno pedido que leva a um interesse na questão, e a tomar uma acção – qualquer acção – tornando o indivíduo mais comprometido com a questão, aumentando assim a probabilidade de adesão futura (R. S. Feldman, 2001);

 

 

2. A dissonância cognitiva ocorre quando uma pessoa mantém duas atitudes ou pensamentos (referidos como cognições) que se contradizem (Leon Festinger) (R. S. Feldman, 2001). Os indivíduos procuram manter alguma consistência entre as componentes afectivas, comportamentais e cognitivas da atitude. Quando uma delas muda, decorre daí um sentimento de inconsistência que conduz o indivíduo a tomar uma de duas opções: a) o indivíduo procura introduzir mudança nas duas componentes que se mantiveram inalteráveis, tornando-as, desta forma, consistentes com aquela que mudou; e b) o indivíduo procura alterar a componente que mudou, no sentido de a voltar a aproximar das restantes (Alcobia, 2001). Sabemos agora que a dissonância explica um determinado número de ocorrências diárias que envolvem as atitudes e o comportamento (R. S. Feldman, 2001). Segundo a Teoria da Dissonância Cognitiva, para aliviar essa tensão as pessoas muitas vezes ajustam as suas atitudes às acções. É como se as pessoas racionalizassem: "Se eu opto por fazer (ou dizer) isso, devo acreditar". Quanto menos coagidos e mais responsáveis nos sentimos por um acto desconcertante, mais dissonância experimentamos. Quanto mais dissonância temos, mais motivados somos a encontrar coerência, mudando por exemplo as nossas atitudes para ajudar a justificar o acto (Myers, 1999);

 

 

3. Outra explicação gira à volta das autopercepções das pessoas. Cedendo ao pedido inicial, os indivíduos podem ver-se a eles próprios como o tipo de pessoa que proporciona ajuda quando lhes é pedido. Assim, quando confrontados com um pedido maior, acabam por concordar, por forma a manter o tipo de consistência de atitudes e de comportamentos que descrevemos anteriormente (R. S. Feldman, 2001).

 

 

Na opinião de Leyens e Yzerbyt (1999), esta estratégia do pé-na-porta explica em grande parte a eficácia de algumas práticas de recrutamento pelas seitas/cultos. Não é difícil aceitar perder algum tempo a preencher um questionário para descobrir os pontos fracos da "personalidade". O drama começa quando esta primeira decisão, quase automática, faz apelo a uma reacção mais exigente, depois a outra, etc. Como todas as outras técnicas, também as que respeitam à manipulação podem ser postas ao serviço de bons ou de maus objectivos. Podem ser utilizadas para aumentarem as dádivas de sangue ou para nos vigarizar na nossa ingenuidade.

As seitas/cultos alienam as pessoas por pressão moral e condicionamento psicológico que não respeita a liberdade de decisão, uma pressão particularmente nociva quando se trata de jovens durante o frágil período de estruturação do eu. Por exemplo: multiplicação das reuniões e das sessões consagradas ao estudo dos documentos do grupo ou do seu chefe, culpabilização face ao passado, medo do futuro, envolvimento afectivo, proposta de sessões isoladas, boas para o "martelar ideológico", abdicação da decisão pessoal entre as mãos do Mestre (Vernette, 2002). O mundo vai "acabar" em breve, pelo que as actividades que o adepto da seita/culto tem que realizar são inúmeras: pregação, assistir a várias reuniões por semana, cultos, confraternizações aos fins-de-semana, etc. A pessoa não tem sequer tempo para pensar, e é isto que se pretende.

As seitas/cultos levam a pessoa a fechar-se no grupo e nas suas conclusões quando ele pretende ser auto-suficiente e quando é exigida a ruptura com o meio social e a família nas relações que não sejam as destinadas a convertê-los (Vernette, 2002). Em determinadas seitas/cultos, se uma pessoa é expulsa, os restantes membros da família devem desprezá-lo. Se não conseguirem converter o cônjuge, devem pedir o divórcio. Há numerosos casais separados por "incompatibilidade religiosa", porque as seitas (ou cultos) exigem a conversão do cônjuge ou a ruptura, para que o adepto se consagre à organização de corpo e alma. Acrescente-se que há incontáveis famílias em conflito porque o marido e pai deixou de trabalhar para se consagrar ao proselitismo exigido pelo grupo, com o qual veio mais tarde a desentender-se, ou acabou por ser abandonado porque a seita (ou culto) mudou planos e pessoas (Prieto, 1994).

As seitas/cultos cristãs(ãos) manipulam também a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, para apoiar a doutrina do movimento, à custa de simplificações abusivas (e.g., levar a Bíblia a dizer em que data vai dar-se o fim do mundo) (Vernette, 2002).

Cialdini, Wissler, e Schweitzer (2002), apresentam seis princípios da influência social efectiva, que também podem ajudar a explicar este fenómeno de adesão a seitas/cultos. Estes princípios, são os seguintes:

 

     

  1. Afeição
  2.  

     

     

  3. Autoridade
  4.  

     

     

  5. Escassez
  6.  

     

     

  7. Consistência
  8.  

     

     

  9. Reciprocidade
  10.  

     

     

  11. Aprovação social
  12.  

    : as pessoas geralmente decidem o que fazer olhando para o que os outros fazem. Quando determinados comportamentos, mesmo aberrantes, como deixar morrer a própria mãe, são aprovados e incitados pela seita/culto, todo o adepto tende a reproduzi-lo.
    : as pessoas devolvem o que os outros lhes deram. Como as seitas/cultos tratam os seus adeptos como membros da sua "família", como "irmãos", estes tendem a retribuir toda a lealdade, mesmo que a seita/culto seja uma fraude;
    : as pessoas têm um forte desejo de ser consistentes com as suas opiniões prévias, afirmações e acções. Como já vimos anteriormente, mesmo perante evidências objectivas de que a doutrina do grupo religioso é falsa, o adepto recusa-se a aceitar que tal possa ser possível;
    : os itens e oportunidades tornam-se mais desejáveis quanto menos acessíveis. Quanto menos forem os "eleitos" destinados por Deus ao Paraíso, mais o adepto tem que empenhar-se em cumprir todas as normas do grupo religioso, que podem incluir donativos pecuniários. Por exemplo, na seita Testemunhas de Jeová, só 144 000 vão para o Ceú, nem mais um;
    : as pessoas são mais facilmente influenciadas por aqueles que percepcionam como sendo autoridades legítimas. Os líderes das seitas/cultos esforçam-se por demonstrar que são os representantes de Deus na Terra. Eles são os "ungidos" pelo Espírito Santo;
    : as pessoas são mais facilmente influenciadas por aqueles de quem gostam. Por isso, os pregadores são sempre muito amáveis, prestáveis, sorridentes, etc.;

 

Durkheim (citado por Lakatos & Marconi, 1999) considera a existência em cada indivíduo, de duas consciências: a colectiva e a individual; a primeira, predominante, compartilhará com o grupo; a segunda, peculiar ao indivíduo. Por «consciência colectiva» entende-se a soma de crenças e sentimentos comuns à média dos membros da comunidade, formando um sistema autónomo, i.e., uma realidade distinta que persiste no tempo e une as gerações. Envolve quase que completamente a mentalidade e a moralidade do indivíduo: o homem "primitivo" pensa, sente e age conforme determina ou prescreve o grupo a que pertence. Este facto pode ajudar a explicar a recusa de muitos adeptos de seitas/cultos abandonarem o grupo, mesmo perante evidências objectivas de que as "curas milagrosas" que realizam são uma fraude, etc.

publicado por alexandreramos às 13:41
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