Sábado, 6 de Outubro de 2007

As seitas e a lavagem cerebral (5)

Adesão

 

 

A influência social é a forma de interacção social, que através da pressão de uma pessoa pode modificar o comportamento, as atitudes, as opiniões (Fischer, 2002) ou os julgamentos de uma outra pessoa, podendo, no entanto, este outro ser apenas imaginado, pressuposto ou antecipado (Passos, 2001). Influenciar é a habilidade para afectar as decisões e acções de outrem, a despeito de qualquer autoridade para isso. A autoridade tem origem na categoria; a influência repousa em grande parte nos atributos pessoais. A autoridade baseia-se no status que a pessoa tem; a influência é baseada na estima que uma pessoa recebe (Horton & Hunt, 1980).

Em 1955, Deutsch e Gerard (citados por Garcia-Marques, 2002) distinguiram dois tipos de influência social:

 

     

  1. A influência (ou dependência) social informativa/informacional: inspirada na teoria de Leon Festinger (publicada em 1954), abrange as situações em que o comportamento dos outros indivíduos, em relação a um estímulo, pode servir para a apreensão das suas qualidades ou, dizendo de outro modo, às situações em que o comportamento dos outros é aceite como prova de verdade;

     

     

     

  2. A influência (ou dependência) social normativa: refere-se às situações em que a susceptibilidade de um indivíduo à influência de um grupo se explica pelo desejo de evitar a sua rejeição por esse mesmo grupo. Rejeição que é mais provável para aqueles que não se conciliam com as expectativas ou normas de um grupo (Garcia-Marques, 2002).

     

 

Em suma, a dependência informativa refere-se ao facto de se ter em conta as opiniões dos outros na percepção da realidade. A dependência normativa, por sua vez, é a influência que tem a ver com a procura de aprovação social (Leyens & Yzerbyt, 1999). No entanto, a distinção entre influência informativa e normativa não pode ser considerada como definindo duas categorias mutuamente exclusivas de influência (Garcia-Marques, 2002).

Os fenómenos mais importantes que têm vindo a ser estudados ao nível da influência social, são: (1) o conformismo ou influência da maioria; (2) a influência da autoridade (também chamada submissão à autoridade ou obediência) (Passos, 2001); (3) a submissão livremente consentida (Fischer, 2002) ou adesão (R. S. Feldman, 2001); e, (4) a inovação ou influência da minoria (Passos, 2001).

Quando discutimos o conformismo, normalmente referimo-nos a um fenómeno no qual a pressão social é subtil ou indirecta. Mas em algumas situações a pressão social é muito mais óbvia, e existe uma pressão directa, explícita, sobre um determinado ponto de vista ou sobre um comportamento específico. Os psicólogos sociais chamam ao tipo de comportamento que ocorre em resposta a uma pressão social directa: adesão (R. S. Feldman, 2001) ou submissão livremente consentida. Trata-se de um tipo de influência que consiste em levar alguém a comportar-se de maneira diferente do que lhe é habitual, manipulando-a de tal maneira que essa pessoa tem a sensação de fazer livremente o que lhe é solicitado (Fischer, 2002).

Podemos considerar duas formas de propaganda com o objectivo de provocar a conversão (adesão) das pessoas a seitas/cultos: (1) o cara-a-cara ou de cara descoberta e (2) recorrendo a meios de comunicação de massas.

O cara-a-cara é levado a cabo com as pessoas do ambiente familiar, do grupo de amigos, das pessoas de confiança, dos companheiros de trabalho. Alguns grupos fazem proselitismo porta a porta. Neste caso, dois membros da seita/culto treinados para o efeito, dirigem-se a uma pessoa isolada, para mais facilmente ser convencida. Contudo, o proselitismo sectário realiza-se sobretudo de forma encoberta. Com frequência, a partir de entidades de fachada que não são facilmente associáveis à seita: entidades culturais, promocionais, científicas. O proselitista é como um promotor de uma empresa, como o vendedor de um produto: o que importa é abrir novos "mercados", isto é, colocá-lo (Prieto, 1994). Um ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Mário Justino, escreve: "...logo entendi que duas qualidades são essenciais para ser um pastor de sucesso na Igreja Universal. A primeira é ter a capacidade de canalizar ofertas expressivas. A segunda é saber entreter o povo e segurá-lo nas «correntes»" (Justino, 1995, p. 41). " Nenhuma outra passagem da Bíblia é tão exaltada e divulgada na Igreja Universal quanto o «Trazei todos os dízimos e ofertas», de Malaquias (3, 10)... Bem-aventurado era o pastor que dominava a arte de fazer com que as pessoas abrissem os seus bolsos ou assinassem cheques a fundo perdido" (Justino, 1995, p. 42). Assim, a amabilidade, o "sorriso de pasta de dentes", as maneiras educadas e conquistadoras não nascem do coração, são apenas um meio de propaganda, muitas vezes para extorquir dinheiro aos crentes (Prieto, 1994).

Porém, as acções de algumas seitas/cultos dirigem-se ao conjunto de uma colectividade ou a uma «massa». Entende-se por meios de comunicação de massas o conjunto de técnicas de difusão colectiva que permitem chegar a uma grande audiência. Os principais meios de comunicação de massas são a imprensa, o cinema, a rádio, a televisão, o livro, o disco, o cartaz e a Internet (Fischer, 2002). A teoria da exposição simples é isso que diz: uma maneira muito simples de modificar as atitudes das pessoas e fazê-las aderir a uma causa, consiste em apresentar-lhes repetidamente o estímulo (Leyens & Yzerbyt, 1999).

As seitas/cultos são hoje um produto de massas, de consumo do supermercado espiritual, e para a sua venda utilizam-se as técnicas de marketing mais modernas, para chegar à possível clientela. É comum encontrar nas ruas das cidades e vilas de países ocidentais, cartazes anunciando cursos de meditação, de relaxamento mental, de cura do stresse, conferências gratuitas sobre temas muito interessantes, como são a arqueologia, a egiptologia, o esoterismo e a filosofia. E quem iria associá-los a uma seita/culto religiosa(o)? Recorre-se a cursos e actividades que despertam o interesse e que abrem o caminho ao contacto, à relação e à sub-reptícia iniciação psicológica na vida da seita/culto. Alguns dos slogans, são: "Tens conflitos matrimoniais? Consulta-nos"; "Deixa as drogas já"; "Se tiveres problemas com o álcool, chama-nos; não esperes por ficar pior"; "Aproxima-te do calor da amizade" (Prieto, 1994).

O que menos importa é a causa; o que mais interessa a estes grupos religiosos é procurar um motivo para meter conversa: para isso, qualquer pretexto é bom. Todas as actividades preliminares, aparentemente neutras sob um ponto de vista religioso, dão a oportunidade de criar laços e de possibilitar encontros posteriores. O interesse "desinteressado" por ajudar as pessoas, por solucionar os seus problemas, por melhorar a sua vida, cria vínculos de afecto com quem lhes estendeu a mão. Estes, por sua vez, procuram estreitar o seu laço afectivo de diversas maneiras, por exemplo, pela insistência telefónica, para que o possível adepto não se afaste com o tempo e a distância. Quem é geralmente atraído por tais medidas desconhece, em primeiro lugar, que esta aproximação foi anteriormente preparada; em segundo lugar, ignora a natureza da conversão manipulada e dos métodos de formação (manipulação social e psicológica) a que é submetido (Prieto, 1994).

Na sociedade moderna, as técnicas de comunicação de massa, tornaram-se um importante agente de socialização dos adultos, tanto como dos jovens (Rocher, 1999). Socialização é o processo pelo qual um indivíduo aprende e interioriza as regras e normas (maneiras padronizadas e esperadas de sentir e de agir) da sociedade. Os psicólogos sociais consideram-no como resultado de pressões sociais para o conformismo (N. Sprinthall & R. Sprinthall, 1993).

Parte da função socializadora exercida através das técnicas de comunicação de massa é explicitamente procurada, por exemplo, o caso das emissões educativas e de informação na rádio e na televisão, dos impressos e dos filmes de carácter didáctico, etc. Mas na maior parte das vezes, é de uma forma indirecta que estas novas técnicas são socializadoras, sobretudo quando se dirigem ao espectador para o divertir, para o distrair, para lhe «fazer esquecer o resto». As técnicas de comunicação de massa sugerem, propõem, exprimem modelos, valores, ideais que podem impor-se com tanto mais força e persuasão quanto se apresentam num contexto dramático ou emotivo que contribui para inibir o juízo crítico (Rocher, 1999). Juízo crítico refere-se ao processo de formação de uma opinião ou conclusão baseada em informação acerca de uma situação e, idealmente, chegar a uma conclusão que pondera e reconhece adequadamente os elementos importantes do tema. O juízo crítico é um fenómeno subjectivo. É afectado pelo intelecto, pela quantidade ou qualidade da informação disponível acerca de uma decisão particular a ser tomada, personalidade, experiências passadas, humor, sentimentos, capacidades cognitivas, factores culturais/subculturais e sociais e quaisquer factores extrínsecos que afectem os possíveis resultados da decisão (e.g., coerção). O juízo crítico é também afectado pelo insight (capacidade de estar ciente dos significados subtis dos pensamentos, ideias e sentimentos, particularmente em relação ao próprio) e pela capacidade de usar o pensamento abstracto (Trzepacz & Baker, 2001).

Estas observações fazem pensar infalivelmente no que se passa em algumas seitas/cultos (Leyens & Yzerbit, 1999). O apelo ao emocional, chave para o acto de conversão no evangelicalismo, é também um dos pontos fortes do proselitismo no processo ulterior de formação, particularmente das comunidades cristãs pentecostais (Galindo, 1994). Um adormecimento subtil da esfera intelectual e uma radical alteração das referências afectivas, leva a pessoa a realizar, ela própria, o ajustamento cognitivo necessário em proveito da mensagem sectária (Leyens & Yzerbit, 1999).

Mário Justino, ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, escreve: "Os cultos eram feitos com gritos frenéticos dos apresentadores e a participação activa da plateia. Esse espectáculo espiritual é dividido em duas partes e chega ao clímax quando são realizados os exorcismos. Nesse momento, pessoas aos gritos começam a rolar pelo chão e jogar para cima os bancos da igreja. Algumas chegam a entrar em luta corporal com os pastores e obreiros. Aos que vinham pela primeira vez, explicávamos que aquelas pessoas estavam possuídas por demónios e ensinávamos que eram esses espíritos malignos a fonte de mazelas como desemprego, problemas financeiros e amorosos. Dizíamos também que as doenças eram sinais físicos dessa possessão demoníaca e, uma vez que estes espíritos eram expulsos, as pessoas ficavam curadas de toda a sorte de enfermidades. Geralmente entrevistávamos os endemoniados e, para mostrar ao respeitável público que tínhamos poder sobre eles, fazíamos com que essas pessoas andassem de joelhos ao redor da igreja, ou batessem a cabeça nos nossos pés, ou latissem ou ainda que imitassem galinhas, porcos e outros animais. Isso dependia da imaginação de cada pastor. Depois dos exorcismos, enquanto o povo explodia em aplausos e gritos de júbilo, do alto do púlpito nós agradecíamos os louvores. Mesmo sabendo que aqueles «demónios» nada mais eram do que pessoas em busca de alguma atenção ou sofrendo de seríssimas crises emocionais, nossa atitude era indefectível" (Justino, 1995, p. 41-42).

O pentecostalismo foi iniciado em 1901 por um pastor metodista, Charles Parham, nos EUA. Sentindo-se inspirado, Parham afirmou ter recebido o baptismo do Espírito Santo. Daí o nome de pentecostalismo, o novo Pentecostes (Sasaki, 1995). Sociologicamente fala-se de pentecostalismo como da "religião dos pobres". Com isso alude-se não só às pessoas que o iniciaram mas também ao facto de que entre os pobres a fé cristã costuma ser entendida e vivida de maneira diferente da das classes acomodadas. Os pobres não possuem livros, e mesmo que os tivessem não disporiam de tempo e de preparação para estudá-los. Isso leva a uma religião que dá pouca importância ao factor intelectual e muita ao emocional, aos sentimentos, concentrando-se na vivência religiosa em torno dos problemas da vida diária. O pentecostalismo representa esse tipo de cristianismo desinteressado da doutrina e centrado no emocional, na vivência do sobrenatural. Por isso são tão importantes nele, os milagres, os sinais como o falar em línguas (glossolalia), as curas, os exorcismos. Em tudo isso descobre-se a força da fé, capaz de vencer o demónio, e a presença real do Espírito Santo, tanto no indivíduo como na comunidade (Galindo, 1994).

O termo neopentecostalismo refere-se às igrejas pentecostais que usam ainda mais a propaganda pela rádio e pela televisão para atrair fiéis, como por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), a Igreja Maná, a Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Amor, etc. São chamadas, por isso, de igrejas electrónicas. De intenso sentimentalismo, voltam-se para a cura e a expulsão de demónios, e prometem sucesso material, conquistando cada vez mais crentes (Sasaki, 1995). Os programas ou "shows" dos pregadores são uma mescla de doutrinas fundamentalistas, música religiosa leve, debates, profecias escatológicas, testemunhos de pessoas renascidas e propaganda política em torno dos temas da Nova Direita Cristã (NDC). Nas variantes pentecostais oferecem-se também curas milagrosas, glossolalia (falar em línguas) ordens às forças naturais e outros "dons do Espírito Santo". Parte essencial (pelo menos 10% do tempo de emissão) é o incentivo directo aos telespectadores para que contribuam com fundos para a obra. Para isso inventaram-se as mais refinadas técnicas (Galindo, 1994).

publicado por alexandreramos às 13:38
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