Terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Psicopatologia - Problemas religiosos e espirituais

 

Recentemente, nos Estados Unidos da América, o Grupo Para o Avanço da Psiquiatria reportou que manifestas referências a religião ocorrem em cerca de um terço de todas as sessões psicanalíticas e, noutros estudos realizados por psicólogos, foi demonstrado que pelo menos 1 em cada 6 clientes apresentam problemas que envolvem religião ou espiritualidade e 4.5% dos pacientes trazem para tratamento experiências místicas (Lukoff, Lu, & Turner, 1996).

Segundo Scharfetter (1999), quando uma pessoa está em crise significa que está a viver uma situação desencadeadora de uma preocupação aguda e tensa e, frequentemente, de medo. De acordo com o conteúdo e os temas devem-se diferenciar: (1) temas profanos; (2) temas existenciais; e, (3) temas religioso-espirituais. Nos temas e conteúdos religiosos-espirituais, o que está em causa são questões de fé; de redenção no desenvolvimento da consciência, para além da consciência do dia-a-dia; e finalmente como ponto culminante da espiritualidade: de mística.

De acordo com o DSM-IV, a categoria Z71.8 Problema Religioso ou Espiritual [V62.89] deve ser usada quando o foco de atenção é um problema religioso ou espiritual. Exemplos incluem: experiências negativas que implicam perda ou questionamento da fé, problemas associados com conversão a uma nova religião, questionamento acerca dos valores espirituais que podem não estar necessariamente relacionados com uma igreja organizada ou instituição religiosa (American Psychiatric Association, 1996).

 

Problemas religiosos

 

Os problemas religiosos têm recebido muito mais atenção que os problemas espirituais na literatura clínica e de investigação. Nos Estados Unidos da América há cerca de uma dúzia de revistas devotadas ao aconselhamento pastoral e um número maior dedicadas à "Psiquiatria cristã". Adicionalmente, há organizações profissionais e conferências que se debruçam sobre problemas religiosos. Os exemplos mais comuns de problemas religiosos descritos na literatura clínica são: a perda ou questionamento da fé, mudança na denominação do movimento religioso ou conversão a uma nova religião, intensificação das crenças e práticas religiosas, e juntar-se ou envolver-se com um novo movimento religioso ou culto (Lukoff et al., 1996).

 

Problemas espirituais

 

A definição de «problemas espirituais» no DSM-IV inclui o questionamento de valores espirituais, não necessariamente relacionados com uma igreja organizada ou instituição religiosa, bem como o inesperado e estranheza da própria experiência (e.g., experiências místicas, experiências de quase-morte, experiências meditativas, etc.). Para algumas pessoas, pode envolver o questionamento do seu inteiro modo de vida, o propósito de viver e a fonte de desígnio (Lukoff et al., 1996).

Sabe-se há séculos que muitos episódios dramáticos e difíceis podem ocorrer durante a prática "espiritual" e que o caminho para a "iluminação" pode ser doloroso e tempestuoso (S. Grof & C. Grof, 1995). Esta "loucura santa" ou "loucura divina", é conhecida e apreciada por várias tradições espirituais, pois é vista como uma forma de intoxicação pelo divino que proporciona habilidades extraordinárias e instrução espiritual. Estas "emergências espirituais" podem ser definidas como estágios críticos e experimentalmente difíceis de uma transformação psicológica profunda, que envolve todo o ser da pessoa. Tomam a forma de estados incomuns de consciência e envolvem emoções intensas, visões e outras alterações sensoriais, pensamentos incomuns, assim como várias manifestações físicas (C. Grof & S. Grof, 1994).

Em casos comuns, os conflitos ocorrem entre os impulsos "normais", entre estes e o "eu" consciente, ou entre a pessoa e o mundo exterior (em particular com as pessoas próximas, como os pais, o parceiro ou os filhos). Contudo, os conflitos podem ocorrer também entre algum aspecto da personalidade e as tendências e aspirações progressivas e emergentes de carácter moral, religioso, humanitário ou espiritual. E, não é difícil determinar a sua presença uma vez que se reconheçam a sua validade e a sua realidade, em vez de descartá-las como meras fantasias ou sublimações (Assagioli, 1997). Os componentes mais problemáticos e alarmantes comummente enfrentados pelas pessoas em emergência espiritual são: sentimentos de medo, sensação de solidão, experiências de loucura e preocupação com a morte. Esses episódios giram em torno de assuntos espirituais, incluem sequências de morte e renascimento psicológico, experiências que parecem memórias de vidas passadas, sensações de união com o universo, encontro com diversos seres mitológicos e outros temas semelhantes. A estranha qualidade desses conceitos e a intensidade com que uma pessoa os apresenta pode induzir colegas, amigos e membros da família a afastarem-se, e a sensação de solidão, já presente, aumenta. Os seus interesses e valores podem mudar, e a pessoa talvez não queira mais participar de certas actividades. Beber com os amigos ao entardecer já não é tão interessante quanto costumava ser; pode até parecer repugnante. O seu súbito interesse por orar, cantar, meditar ou por qualquer sistema esotérico (e.g., a Astrologia ou a Alquimia) parecerá estranho à família e aos amigos, podendo aumentar a sua necessidade de afastamento (C. Grof & S. Grof, 1994).

Em suma, o desenvolvimento espiritual é uma longa e árdua jornada, uma aventura por estranhas terras plenas de surpresas, de alegrias e de beleza, de dificuldades e até de perigos. Envolve o despertar de potencialidades até então adormecidas, a elevação da consciência a novos domínios, uma drástica transmutação dos elementos "normais" da personalidade e um funcionamento no âmbito de uma nova dimensão interior. De uma maneira geral, a emergência de tendências espirituais pode ser considerada o resultado de pontos decisivos do desenvolvimento, do "crescimento" da pessoa (Assagioli, 1997). Desta forma, o termo "emergência espiritual" é, obviamente, um jogo de palavras, referindo-se à crise ou "emergência", que se pode unir à transformação e à ideia de "emersão", e sugerindo a grande oportunidade que essas experiências podem oferecer para o crescimento pessoal e para o desenvolvimento de novos níveis de consciência (C. Grof & S. Grof, 1994).

 

Critérios de distinção entre uma perturbação mental e uma emergência espiritual

 

Polónio (1997) destaca que: "o diagnóstico das doenças psiquiátricas está ainda sobrecarregado de preconceitos que levam a reacções emocionais prejudiciais aos doentes, à família e à sociedade" (p. 23). Desta forma, até que ponto grande proporção de pessoas internadas como doentes mentais nos hospitais psiquiátricos não são, na realidade, pessoas normais que estavam a caminho de uma ampliação do seu campo de consciência? (Weil, 1976).

De acordo com Crombach (citado por Simões, 1992), seriam somente patológicos os estados modificados de consciência, que ocorressem sem ser desejados (espontâneos) e quando:

 

1. Surgem como forma vivencial dominante, na vida quotidiana;

 

2. Se evitam soluções adequadas à vida quotidiana;

 

3. Na situação da sua vivência, não há ou existem poucas subestruturas cognitivas ou sociais para lidar com os EMC.

 

Lukoff et al. (1996), sugeriram usar bons indicadores de prognóstico para ajudar a distinguir entre uma psicopatologia e experiências espirituais autênticas. Os critérios que foram usados para identificar os indivíduos que estavam a atravessar uma emergência espiritual que tinha traços psicóticos incluem:

 

1. Bom funcionamento antes do episódio psicótico;

 

2. Início agudo de sintomas durante um período de 3 meses ou menos;

 

3. Houve stressores precipitantes do episódio psicótico;

 

4. Existe uma atitude exploratória positiva em relação à experiência.

 

Os indivíduos que se encontram nestes critérios para uma emergência espiritual devem ser tratados com psicoterapia transpessoal, a hospitalização deve ser evitada e a medicação deve ser reduzida ao mínimo (Lukoff et al., 1996).

Esta posição alternativa a uma psicopatologia taxonómica clássica, encontra-se ainda em estádio rudimentar e o seu desenvolvimento está dependente de factores sociais (moda, aceitação geral, etc.) e transculturais, ou seja, a difusão de estados modificados de consciência na cultura ocidental, de valores e experiências já aceites por outras sociedades (Simões, 1996).

Em suma, os estados modificados de consciência não são patológicos em si mesmos, isto é, decorrem de um contexto, frequentemente mágico, religioso ou curativo, sendo integrados na cultura que os propicia (Simões, 1997b). Além disso, os estados modificados de consciência têm geralmente a duração de minutos ou horas, o que os diferencia da maioria das doenças psiquiátricas (Simões, 1996a). Só a sua persistência ou falta de autonomia pessoal ou social após a sua vivência os tornam patológicos (Simões, 1997b).

Contudo, os estados visionários perderam o seu carácter de valioso complemento dos estados de consciência comuns, sendo tomados por distorções patológicas da actividade mental (S. Grof & C. Grof, 1995). Assim, muitos desses estados incomuns de consciência são considerados patológicos e tratados com métodos psiquiátricos tradicionais, tais como: medicação e hospitalização supressivas, embora testes clínicos e laboratoriais não ofereçam nenhuma evidência que comprove esse tipo de abordagem (C. Grof & S. Grof, 1994).

Os doentes podem aparecer-nos com etiquetas de diagnóstico, mas estas são muitas vezes incorrectas ou podem induzir em erro. Além disso, existem estudos que demonstram que os clínicos tendem a chegar às suas primeiras conclusões diagnósticas 3 ou 4 minutos após o início do diálogo com o doente. Embora esse processo possa ser proveitoso por gerar um conjunto de questões úteis que confirmarão ou infirmarão a impressão inicial, alguns clínicos encerram esta fase prematuramente e fixam-se demasiado nas suas primeiras impressões. No entanto, a sua intuição inicial pode estar errada; os diagnósticos representam sempre tentativas – devem sempre considerar-se outras possibilidades, que podem vir a mostrar-se correctas. Cada caso deve ser estudado com um olhar crítico e abertura de espírito, tendo na devida consideração todas as alternativas. Cada um de nós é único, e o médico nunca deve perder de vista essa mesma individualidade, tentando aplicar os critérios de diagnóstico de rígida e mecanicista. Uma forte confiança no julgamento clínico e o respeito pela imensa variedade da natureza humana devem constituir-se a base de qualquer interpretação dos critérios genéricos do DSM-IV-TR (Frances & Ross, 2004).

 

publicado por alexandreramos às 08:25
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